Ainda aquela noite obtive os resultados dos exames de sangue, e para minha surpresa, nada havia sido constatado, tudo normal. Eu e Aelena começamos a produzir o relatório final dizendo que “ao concluir todos os tipos de exames e análises no corpo de Alice, os resultados foram que a adolescente não apresenta nenhum tipo de alteração metabólica, ou anomalia genética, o próximo passo será fazer uma quarentena para analisar em diversos contextos o seu comportamento, para isso será necessário o acompanhamento de psicólogos e neurologistas, junto da equipe atual”.
Eu e a doutora Aelena assinamos e ela pediu para que uma segunda assistente que havia chegado no turno da tarde o levasse até Lena e Xiao. Alice estava com a aparência muito melhor após comer bem, e também após um cochilo saudável e não induzido, ela ficou curiosa sobre os equipamentos, ao se sentir mais à vontade ela perguntou:
Eu vou voltar para casa? Não consegui ver muita saudade do lugar, mas ao mesmo tempo seu olhar transmitia um pouco de tristeza.
Temos algumas etapas ainda para terminar, e se tudo der certo, creio que voltará sim. Eu disse isso, sem saber se podia dizer, ela deu um leve sorriso, mas seu olhar parecia ainda um pouco perdido.
Você se lembra de alguma coisa anterior ao dia de hoje? Perguntei.
Eu me lembro de estar saindo da escola… eu fui até além do muro… e só daí pra frente nada existia mais. O fato dela me dizer que realmente esteve para além do muro da Cidade, me fez ter um leve frio na espinha.
Bom, talvez com o tempo você se lembre de algo. Ela assentiu, e pediu para ver como era lá fora, eu disse que assim que tivesse permissão oficial ela poderia ver.
Tinham muitas coisas nesse caso que o tornavam complexo, Alice era filha de uma família que tinha certa influência, os Wurtz, eles haviam sido, pelo menos em parte, enviados à Cidade para trabalho de campo e controle, por isso nada em Alice a fazia parecer que veio de um “mundo degradado”, só que segundo os arquivos, ela foi dada como desaparecida, agora como devolvê-la aos pais sem que isso criasse muitas perguntas, havia muitos Wurtz dentro da Longwang e nenhum deles sabia da operação, mas a pergunta que eu fazia era: por quê? Pra que esconder isso, o que realmente havia acontecido 2 anos atrás?
Uma hora antes do turno encerrar Lena Brandenburgo em pessoa veio até o laboratório, ela queria ver a menina com os próprios olhos:
Doutor Kern, quero ver Alice, li seu relatório e estou tão confusa quanto você! O tom de voz dela, por algum motivo, não combinava com a afirmação.
Chamei Alice, e o que aconteceu foi algo que não tem explicação, assim que Lena a viu, Alice gritou de um modo quase não humano, as luzes do escritório se apagaram, e Lena ficou em choque, a garota só parou de gritar quando desmaiou. Doutora Aelena imediatamente carregou a menina até um quarto com equipamentos de medição, para vermos se alterações foram registradas.
A senhora está bem? Perguntei a Lena, ela só acenou e respondeu.
Quero acompanhar… pelo menos essa parte. Não seria eu a dizer não para a Presidente da empresa, então eu disse que sim.
Nesse meio tempo, a doutora Aelena gritou da sala pedindo para irmos até lá, corremos e ao chegarmos, os equipamentos estavam alucinados, como se Alice estivesse tendo múltiplas complicações simultâneas, parecia que havia mais uma pessoa junto de Alice, as coisas não faziam sentido. Decidimos então preparar sedativos, quando fui aplicar, todas as máquinas pararam, Alice abre os olhos subitamente e me segura com uma força não muito comum para uma menina daquela idade e olhando nos meus olhos diz:
Ela é a grande culpada… ela é a grande culpada.
Quem? Do que você está falando? Alice simplesmente apontou em direção a Lena, e desmaiou.
Lena se recusou a falar qualquer coisa a respeito, só disse que iria mandar agentes da Guarda Prussiana para vigiar o laboratório, ela parecia bem perturbada quando saiu, jamais a vi assim antes, tinha algo muito mais obscuro nisso e eu precisava descobrir. Os guardas chegaram e com eles a tenente médica Julia Wunterbach, seguida de seu subtenente Sebastian Haussen, os dois ficariam ali até a passagem de turno. Eu voltava para casa, depois de pensar que dia seria um pouco mais leve e com alguma solução, ele virou de ponta cabeça, cheguei em casa, tomei meu vinho e fiz meu jantar, minha cabeça estava a mil e cheia de perguntas, as coisas e tudo o que vivi até então passaram a não fazer mais sentido.
Acordei na manhã seguinte com uma chamada de emergência da tenente Julia, ela disse com voz gelada “venha imediatamente, a situação saiu do controle”. Aquilo fez meu coração parar, e senti um frio na espinha, eu tinha certeza dentro de mim, que as coisas iam só piorar. Ao chegar em frente a Longwang vários carros da Guarda Prussiana estavam no local, tive que mostrar minha identidade umas 5 vezes para conseguir entrar.
Ao chegar, a tenente Julia diz sem muitos rodeios: “A garota sumiu” antes mesmo de eu perguntar qualquer coisa ela disse:
Não tinha nenhuma rota de fuga, todo o laboratório estava lacrado, e com guardas atentos à noite toda, e as câmeras… bem as câmeras simplesmente desligaram por volta das 3 horas da manhã, e só voltaram às 4h20, já comunicamos Lena e Xiao, ainda não tivemos retorno.
As procuras se iniciaram, um alerta foi emitido pela Chefia da Guarda Prussiana, para que todos ficassem atentos, detalhes da Paciente 103 foram passados, mas nada de foto, havia Wurtz por toda a sociedade de Marte, e agora toda a história, seja lá qual tenha sido contada por Lena Brandenburg e Xiao Han, estava por um fio de cair, e eu, bem, eu estava cada vez mais confuso, para quem eu havia trabalhado todo esse tempo.
Não tinha mais o que fazer, voltei para casa e procurei olhar mais a fundo os arquivos sobre Alice e comecei a entender que nada ali fazia sentido, as informações eram imprecisas e parecia que algo estava sendo encoberto, então recebi outra chamada, era a doutora Aelena, ela estava em pânico, pedi calma e que ela falasse mais devagar, e das muitas coisas que ela falou, poucas palavras foram suficientes:
Doutora Xiao Han estava morta. Ela disse e continuou. Mal podiam reconhecer seu corpo.
Eu fiquei sem saber o que dizer, só pedi calma a doutora Aelena e disse que iria até a Longwang novamente, sem saber se teria coragem para isso. Ao desligar ainda em choque uma voz subitamente me chamou:
Doutor Kern!
Senti meu coração bater tão rápido que parecia que eu ia morrer ali mesmo, olhei para trás e fiquei gelado… era Alice, ela estava nua e parcialmente envolta em uma densa névoa negra, seus olhos brilhavam, eu tentei dizer algo, mas minha voz não saía, o pavor tinha tomado conta de mim.
Obrigado por cuidar de mim, agora poderei dar sequência à minha vingança, farei com esse planeta o que fiz com a Terra! Ela deu um sorriso sinistro, seus olhos sequer piscavam.
Do que você está falando? Você é só uma criança… Nesse ponto aquilo que parecia ser Alice, soltou uma gargalhada sombria e metálica, ela começou a caminhar na minha direção, a única coisa que eu sentia era pavor.
Doutor, não seja tolo, Alice Wurtz morreu há 2 anos, o corpo dela agora é meu, e com esse corpo, nada vai me impedir em meu propósito de destruir tudo que Lena Brandenburg fez.
Mas o que é você afinal? Perguntei.
Quem sou eu? Eu sou o Caos, doutor, e minha função é levar tudo à ruína, mas antes eu levo todos a pensarem que chegaram à glória. Lena e Xiao só chegaram até aqui pois eu ajudei, agora é hora de pagar a dívida.
Então você é um demônio? Eu já parecia estar me esvaindo.
Hum… eu sou aquilo que os demônios temem, pois eu sou a origem e o fim deles.
Quando ela disse isso, a névoa negra e densa dela se expandiu e cobriu toda a casa, eu me senti sufocado, e com um terror que jamais senti. Alice apareceu na minha frente, ainda nua, mas sem nada a cobrindo, sua pele estava pálida e seus olhos eram negros, mais densos que aquela névoa. Eu já não estava mais em casa, eu estava em trevas profundas.
Doutor Kern, nada acontecerá com o senhor, quando voltar estará em outro lugar, e tudo o que o senhor viveu até hoje, será um passado distante, você me ajudou no meu plano, agora eu retribuo, mas lembre-se eu sempre volto.
E foi isso, acordei em uma nave da Longwang, não fazia ideia do que havia acontecido, eu estava em uma cama de hospital, assim que acordei uma das enfermeiras me disse para ter calma, que eu precisava me recuperar de um longo período em coma.
Coma? Por quanto tempo? Perguntei com medo da resposta.
Preciso que o senhor se acalme… pois faz 10 anos, desde o dia da explosão de Marte.
Minha cabeça entrou em parafuso, e eu não sabia de mais nada, perguntei sobre a doutora Aelena, e a enfermeira disse, que ela agora era chefe de operações da Comunidade Móvel Espacial, 40% da população havia morrido em Marte, inclusive Lena Brandenburg. Perguntei sobre Alice Wurtz, e a enfermeira me falou com singeleza:
Nunca, em hipótese alguma, fale sobre Alice Wurtz, é estritamente proibido.
E nunca mais nada sobre Alice Wurtz foi mencionado, tudo sobre ela foi destruído na explosão, menos o legado dos Brandenburg, que seguiria com Yaakov’ Na Brandenburg como presidente da Longwang. Afinal, eles são inevitáveis.