Dark Apocrypha
Longwang // Arquivo 103Paciente: Alice WurtzSigilo máximo
Protocolo Alice

Ficção Científica Distópica / Horror Cósmico

Protocolo Alice

Após a Grande Catástrofe, a humanidade vive em Marte sob o controle da Longwang. O cientista chefe Doutor Kern é convocado para liderar o Protocolo Alice: estudar Alice Wurtz, uma garota de 16 anos que tocou um fragmento do caos e passou dois anos isolada na lua Europa. No Lab 103, o laboratório mais profundo e seguro, algo desperta — e não é mais a menina que chegou na cápsula. Um conto sobre controle, mentiras institucionais e aquilo que até os demônios temem.

“Quem sou eu? Eu sou o Caos, doutor, e minha função é levar tudo à ruína… Hum… eu sou aquilo que os demônios temem, pois eu sou a origem e o fim deles.”

Conto completo

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Arquivo recuperado — leitura completa

Ato I

Hoje, ainda pela manhã, ao ver que tinha uma mensagem designada para mim, vi que era de Lena, ela soava urgente a respeito dos assuntos de alta prioridade da Longwang.

Eu sou cientista chefe de uma das pesquisas recentes da empresa, tomei meu café o mais rápido possível, o caminho até a empresa era rápido, passei pelo monumento de Brandemburgo que fica ao leste da praça principal, o dia estava muito bonito e o sol brilhava no céu esverdeado.

Ao chegar na Longwang logo me dirigi para a sala de Lena, ao entrar, ela estava de pé encostada em sua mesa e com uma expressão séria, Lena Brandemburg era uma mulher de prestígio devido aos seus feitos pela humanidade, logo após a Grande Catástrofe que obrigou muitos humanos a abandonarem a Terra e migrarem para Marte.

Sente-se, preciso lhe pedir algo, Doutor Kern.

Ela se virou e logo se sentou em sua cadeira, ela parecia calcular cada palavra antes de falar qualquer coisa, tinha algo a mais naquilo.

Você sabe, Doutor Kern, que sempre faço tudo pelo bem da nossa raça.

Sim, eu sei, Doutora Brandemburgo. Respondi em tom confuso.

Tinha algo que a incomodava de certa forma e começava a me incomodar também, e para piorar eu já estava ligando os pontos, o assunto só podia ser a respeito da Cidade, que permanecia na Terra.

Você sabe que a situação na Cidade é complexa, e que as experiências da Caçada vêm exigindo cada vez mais de nossas equipes. Disse ela.

Não é de hoje, mas é algo necessário para proteção dos demais, não podemos correr riscos com degradados. Eu respondi sem pensar muito, apenas saiu.

Essa fala trouxe uma certa calma ao rosto de Lena e ela até esboçou um leve sorriso, confesso que isso a deixava muito mais bela, era algo raro de se ver.

Por isso, Doutor Kern, é que te escolhi para ser líder, você entende todos os princípios e sacrifícios que eu e todos na Longwang temos de fazer. Por isso preciso que você inicie novos experimentos para aumentarmos o controle das pessoas na Cidade, pois a Caçada não está sendo o suficiente.

A senhora quer a ativação do Protocolo Alice? Indaguei com medo do que ouviria.

Sim, preciso que envie uma equipe até Europa, pelo que sei, Alice está sob controle e agora podemos dar sequência aos experimentos, Alice é fundamental para o Controle Total.

De fato, Alice havia sido um problema desde que a pobre garota havia entrado em zona proibida e entrado em contato com um fragmento do caos, mas que agora, 2 anos depois de a enviarem para a zona de restrição na lua Europa e diversas análises, ela havia atingido estabilidade para ser estudada.

Eu e Lena conversamos por mais alguns minutos e ela me passou todos os relatórios, a cápsula com Alice chegaria em dois dias, para darmos início ao Protocolo Alice.

Montamos uma estrutura inicial e preparamos todos os demais membros da equipe com as instruções certas, a Guarda da Nova Prússia foi chamada para garantir a segurança da cidade e dos envolvidos.

Fiquei em casa nos dias que antecederam a chegada de Alice, estudando todos os arquivos e relatórios que tinham sido emitidos, confesso que é um caso bem complexo e com muitas incertezas, apesar dos relatórios dos últimos 6 meses apresentarem uma estabilidade, não dava para ter certeza do que poderia chegar em Marte, foi então que decidi ligar para o laboratório e falar com a diretora-geral da pesquisa, Doutora Xiao Han, por chamada de vídeo organizamos um procedimento que faria tudo por etapas, no Lab 103, o mais profundo e seguro, qualquer erro eliminaríamos Alice, não é o ideal, mas é o que deve ser feito em caso de as coisas saírem do controle.

Sabemos que ao tocar no fragmento do caos, a pessoa pode ter mudanças bruscas de comportamento e seu sistema biológico pode ter comportamentos fora do comum, a equipe da Europa implantou nanorobôs em Alice e desde então monitora tudo à distância, então temos tudo pronto para a chegada.

Finalmente o dia chegou, logo cedo parti para a Longwang para deixar tudo pronto, em uma hora a cápsula chegaria, tudo estava sendo monitorado à distância, e todos na equipe que precisaram ir até Europa, estavam bem e não relataram problemas ou anomalias. A Guarda da Nova Prússia estava em posição e todos os cientistas e assistentes, inclusive Xiao e Lena, estavam esperando, às 9 da manhã a cápsula chegou.

Ato II

Assim que a cápsula chegou e aterrissou, todos da equipe que vieram junto foram os primeiros a descer e a serem examinados, ao ver que todos estavam ok, checamos a cápsula onde o compartimento em que Alice se encontrava; não havia danos ou anormalidades nos medidores, só então tiramos a célula de criogenia com Alice e iniciamos o procedimento de transferência, a guarda cercou uma boa área para evitar aglomeração de curiosos, cerca de 3 quarteirões foram isolados.

Ao entrarmos no elevador de cargas especiais da Longwang, iniciamos a descida, todos estavam tensos, eu, Lena, Xiao e todos os envolvidos falamos somente o necessário, minha cabeça parecia estar desligada, não pensava em nada, além de concluir tudo aquilo sem nenhum tipo de erro, dava para ver o rosto de Alice, por um instante pensei, se realmente aquela garota de 16 anos agora, podia fazer algum mal, mas a questão era justamente essa, não era ela, era a coisa que ela havia entrado em contato.

Chegamos no Lab 103, estava tudo pronto, colocamos a célula com Alice em um grande recipiente ligado com um alimentador repleto de componentes nutricionais que seriam parte do processo de despertar progressivo da jovem. Xiao rompeu o silêncio com sua voz firme:

Atenção, temos que manter todo o cuidado e continuar monitorando durante todo o período de despertar, lembramos, que apesar de parecer inofensiva Alice não tem controle da própria consciência, ela foi afetada por um fragmento do caos, o mesmo que destruiu boa parte de nosso planeta e matou milhões!

Lena logo se pronunciou em sequência:

Alice Wurtz foi uma menina que sofreu o peso da irresponsabilidade das pessoas depravadas da Cidade, que teve sua mente corrompida por mitos, e isso lhe custou sua integridade, o que vamos fazer aqui é devolver a dignidade dessa criança. Dessa forma eu Lena Brandemburgo, determino o início do Protocolo Alice, pelo bem de nossa raça!

Após sua fala, que me fez pensar muito quando voltei para casa, mas naquele momento eu tinha de focar no trabalho e iniciamos o despertar. Fiquei no laboratório até tarde da noite, ao fazer a última revisão e ver que tudo estava sob controle, passei meu turno para a cientista Mao Yang, uma das pupilas de Xiao, e que me assustava com sua inteligência e frieza.

No caminho de casa coloquei uma música do velho mundo, rock antigo de uma banda do México, como eu queria ser parte daquele mundo, tudo parecia ser mais colorido do que hoje. As palavras quase doutrinadas de Lena ecoaram em minha mente, o que realmente era a Cidade, por que todos viam as pessoas de lá como degradados, eles eram como? Deformados?

O rosto da jovem Alice me veio à mente, o que de fato aconteceu lá embaixo, ela contradiz o que Lena disse, era uma menina de boa aparência que foi afetada por um poder que nem mesmo nossa tecnologia conseguiu entender, ou pelo menos, eu e minha equipe, Xiao e seu time como a Mao, sempre pareciam saber mais. Talvez eu só esteja divagando, talvez como disse minha mãe, eu precisava ter construído uma família para não ser tão solitário, mas concordando ou não, eu tinha iniciado algo e tinha que terminar.

Ao chegar em casa ainda naquela noite eu preparei meu jantar, uma taça de vinho e comecei a pensar em como fazer tudo de uma forma que não desse erro, não sabemos, de fato, o que aconteceu, então tínhamos que tomar cuidado, mas mesmo que eu quisesse esquecer ou tirar de minha cabeça, o rosto daquela garota não parecia ser algo perigoso, parecia ser o de uma vítima. Mas vítima de quê? Isso era algo que eu não poderia responder.

No dia seguinte levantei cedo e parti para o laboratório, o dia estava ensolarado e bonito, os alunos da Saint Mitchell School passavam pelo semáforo em seus trajes elegantes e muito bonitos, muitos dos cientistas haviam passado pela escola antes de chegar até a Longwang.

Ao ver algumas das meninas da escola, me recordei de Alice, e pensei, “ela já foi apenas uma menina que queria ser algo, e que tinha curiosidade”. Afastei qualquer pensamento, eu não poderia entrar em crise emocional logo agora.

Cheguei ao prédio principal e logo desci até o Lab 103, encontrei com Mao saindo de seu turno, e vi que ela se esforçou muito para me notar e dar um aceno com a cabeça, cheguei e quem seria minha parceira naquele turno era Aelena Kronenberg, uma jovem e simpática cientista que estava na empresa havia quase dois anos, ela veio até mim e disse:

Bom dia, Doutor Kern! Os dados mostram que todos os sinais vitais da garota estão normais, e sem nenhum traço aparente de anomalias, se tinha alguma coisa nela, bem, se foi…

A forma leve e descontraída da Doutora Kronenberg fazia parecer que aquilo era algo a ser celebrado e comum, como um paciente prestes a ter alta, mas por todo o contexto deixava tudo muito mais imprevisível e minha mente estava quase em curto ao ver todos os resultados das análises dos processos biológicos de Alice.

É como se o tempo não tivesse passado, é como se nada tivesse invadido seu corpo? Nenhum dado celular, nada? Como pode?

Provavelmente isso tem a ver com as complexas propriedades dos fragmentos, pelo que a Dra. Mao me passou, eles são compostos de matéria escura, e mesmo com nossa tecnologia de ponta, não conseguimos dizer como isso interage no organismo humano. Talvez também tenha o fato de ela estar em criogenia, e seu corpo esteja em funcionamento mínimo, talvez seja algo apenas reativo… não dá para ter certeza.

Ela tinha um ótimo ponto, só saberíamos o que realmente iria acontecer quando ela acordasse, a criogenia poderia estar mascarando efeitos. Dra. Kronenberg foi levar o relatório para Lena e Xiao, eu dei início à última fase do despertar de Alice, não deveria demorar.

Fui pegar um café enquanto as máquinas faziam seu trabalho, devo ter ficado uns 10 minutos perdido em meus pensamentos, quando voltei tomei um susto tão grande que derramei todo meu café… Alice estava sentada à beira da cama criogênica, com um olhar vibrante e um rosto curioso e um pouco assustado, ela falou com uma voz um pouco trêmula, mas muito doce:

Doutor, onde estou… e … (seu estômago roncou) tem algo para comer?

Eu fiquei alguns segundos sem saber o que dizer, e o que fazer, meu cérebro simplesmente deu blackout, “não era para essa garota ser um perigo à sociedade?” e a primeira coisa que ela me pergunta é se tem algo para comer? Após algum tempo voltei à realidade e disse:

Ah, Alice, posso te arrumar algo sim, mas terá de ser leve, ou seu estômago poderá rejeitar devido a efeitos da criogenia… por favor venha até essa cama mais confortável, vou trazer um ensopado instantâneo para você… você sente algo mais?

Ah…. minha boca está seca… e tô um pouco tonta…

Ajudei-a a se locomover até a cama na outra sala, levei umas roupas novas e disse que ela podia se banhar na banheira automática, enquanto eu ia preparar algo para comer, foi nessa hora que a Dra Kronenberg voltou, ela arregalou os olhos, e ficou me olhando por alguns segundos, quando saímos da presença da garota ela disse:

Doutor… ela simplesmente acordou assim, nenhum comportamento suspeito?

Não! Eu disse. Acordou como uma criança normal, prepare algo para ela comer, ela está muito fraca, vou fazer mais alguns exames.

Agradeço às 7 Sabedorias por ser a Dra. Kronenberg comigo, uma pessoa muito empática e que trata pessoas como pessoas, enquanto a doutora preparava algo para ela comer continuei com os exames, Alice havia se trocado e tomado seu banho, estava com o rosto um pouco mais corado. No monitoramento em tempo real estava tudo bem, fiz coleta de sangue, e poucos minutos depois chegou a Dra Aelena com o ensopado, a menina devorou e queria repetir, pedi que ela esperasse um pouco, para ver como seu organismo irá reagir, assim que parecesse tudo ok, eu a deixaria repetir. Alice ficou a maior parte do tempo em silêncio, mas colaborou com tudo, eu pedi à Dra. que só desse relatório após termos um cenário completo com exames e uma anamnese completa.

Ato III

Ainda aquela noite obtive os resultados dos exames de sangue, e para minha surpresa, nada havia sido constatado, tudo normal. Eu e Aelena começamos a produzir o relatório final dizendo que “ao concluir todos os tipos de exames e análises no corpo de Alice, os resultados foram que a adolescente não apresenta nenhum tipo de alteração metabólica, ou anomalia genética, o próximo passo será fazer uma quarentena para analisar em diversos contextos o seu comportamento, para isso será necessário o acompanhamento de psicólogos e neurologistas, junto da equipe atual”.

Eu e a doutora Aelena assinamos e ela pediu para que uma segunda assistente que havia chegado no turno da tarde o levasse até Lena e Xiao. Alice estava com a aparência muito melhor após comer bem, e também após um cochilo saudável e não induzido, ela ficou curiosa sobre os equipamentos, ao se sentir mais à vontade ela perguntou:

Eu vou voltar para casa? Não consegui ver muita saudade do lugar, mas ao mesmo tempo seu olhar transmitia um pouco de tristeza.

Temos algumas etapas ainda para terminar, e se tudo der certo, creio que voltará sim. Eu disse isso, sem saber se podia dizer, ela deu um leve sorriso, mas seu olhar parecia ainda um pouco perdido.

Você se lembra de alguma coisa anterior ao dia de hoje? Perguntei.

Eu me lembro de estar saindo da escola… eu fui até além do muro… e só daí pra frente nada existia mais. O fato dela me dizer que realmente esteve para além do muro da Cidade, me fez ter um leve frio na espinha.

Bom, talvez com o tempo você se lembre de algo. Ela assentiu, e pediu para ver como era lá fora, eu disse que assim que tivesse permissão oficial ela poderia ver.

Tinham muitas coisas nesse caso que o tornavam complexo, Alice era filha de uma família que tinha certa influência, os Wurtz, eles haviam sido, pelo menos em parte, enviados à Cidade para trabalho de campo e controle, por isso nada em Alice a fazia parecer que veio de um “mundo degradado”, só que segundo os arquivos, ela foi dada como desaparecida, agora como devolvê-la aos pais sem que isso criasse muitas perguntas, havia muitos Wurtz dentro da Longwang e nenhum deles sabia da operação, mas a pergunta que eu fazia era: por quê? Pra que esconder isso, o que realmente havia acontecido 2 anos atrás?

Uma hora antes do turno encerrar Lena Brandenburgo em pessoa veio até o laboratório, ela queria ver a menina com os próprios olhos:

Doutor Kern, quero ver Alice, li seu relatório e estou tão confusa quanto você! O tom de voz dela, por algum motivo, não combinava com a afirmação.

Chamei Alice, e o que aconteceu foi algo que não tem explicação, assim que Lena a viu, Alice gritou de um modo quase não humano, as luzes do escritório se apagaram, e Lena ficou em choque, a garota só parou de gritar quando desmaiou. Doutora Aelena imediatamente carregou a menina até um quarto com equipamentos de medição, para vermos se alterações foram registradas.

A senhora está bem? Perguntei a Lena, ela só acenou e respondeu.

Quero acompanhar… pelo menos essa parte. Não seria eu a dizer não para a Presidente da empresa, então eu disse que sim.

Nesse meio tempo, a doutora Aelena gritou da sala pedindo para irmos até lá, corremos e ao chegarmos, os equipamentos estavam alucinados, como se Alice estivesse tendo múltiplas complicações simultâneas, parecia que havia mais uma pessoa junto de Alice, as coisas não faziam sentido. Decidimos então preparar sedativos, quando fui aplicar, todas as máquinas pararam, Alice abre os olhos subitamente e me segura com uma força não muito comum para uma menina daquela idade e olhando nos meus olhos diz:

Ela é a grande culpada… ela é a grande culpada.

Quem? Do que você está falando? Alice simplesmente apontou em direção a Lena, e desmaiou.

Lena se recusou a falar qualquer coisa a respeito, só disse que iria mandar agentes da Guarda Prussiana para vigiar o laboratório, ela parecia bem perturbada quando saiu, jamais a vi assim antes, tinha algo muito mais obscuro nisso e eu precisava descobrir. Os guardas chegaram e com eles a tenente médica Julia Wunterbach, seguida de seu subtenente Sebastian Haussen, os dois ficariam ali até a passagem de turno. Eu voltava para casa, depois de pensar que dia seria um pouco mais leve e com alguma solução, ele virou de ponta cabeça, cheguei em casa, tomei meu vinho e fiz meu jantar, minha cabeça estava a mil e cheia de perguntas, as coisas e tudo o que vivi até então passaram a não fazer mais sentido.

Acordei na manhã seguinte com uma chamada de emergência da tenente Julia, ela disse com voz gelada “venha imediatamente, a situação saiu do controle”. Aquilo fez meu coração parar, e senti um frio na espinha, eu tinha certeza dentro de mim, que as coisas iam só piorar. Ao chegar em frente a Longwang vários carros da Guarda Prussiana estavam no local, tive que mostrar minha identidade umas 5 vezes para conseguir entrar.

Ao chegar, a tenente Julia diz sem muitos rodeios: “A garota sumiu” antes mesmo de eu perguntar qualquer coisa ela disse:

Não tinha nenhuma rota de fuga, todo o laboratório estava lacrado, e com guardas atentos à noite toda, e as câmeras… bem as câmeras simplesmente desligaram por volta das 3 horas da manhã, e só voltaram às 4h20, já comunicamos Lena e Xiao, ainda não tivemos retorno.

As procuras se iniciaram, um alerta foi emitido pela Chefia da Guarda Prussiana, para que todos ficassem atentos, detalhes da Paciente 103 foram passados, mas nada de foto, havia Wurtz por toda a sociedade de Marte, e agora toda a história, seja lá qual tenha sido contada por Lena Brandenburg e Xiao Han, estava por um fio de cair, e eu, bem, eu estava cada vez mais confuso, para quem eu havia trabalhado todo esse tempo.

Não tinha mais o que fazer, voltei para casa e procurei olhar mais a fundo os arquivos sobre Alice e comecei a entender que nada ali fazia sentido, as informações eram imprecisas e parecia que algo estava sendo encoberto, então recebi outra chamada, era a doutora Aelena, ela estava em pânico, pedi calma e que ela falasse mais devagar, e das muitas coisas que ela falou, poucas palavras foram suficientes:

Doutora Xiao Han estava morta. Ela disse e continuou. Mal podiam reconhecer seu corpo.

Eu fiquei sem saber o que dizer, só pedi calma a doutora Aelena e disse que iria até a Longwang novamente, sem saber se teria coragem para isso. Ao desligar ainda em choque uma voz subitamente me chamou:

Doutor Kern!

Senti meu coração bater tão rápido que parecia que eu ia morrer ali mesmo, olhei para trás e fiquei gelado… era Alice, ela estava nua e parcialmente envolta em uma densa névoa negra, seus olhos brilhavam, eu tentei dizer algo, mas minha voz não saía, o pavor tinha tomado conta de mim.

Obrigado por cuidar de mim, agora poderei dar sequência à minha vingança, farei com esse planeta o que fiz com a Terra! Ela deu um sorriso sinistro, seus olhos sequer piscavam.

Do que você está falando? Você é só uma criança… Nesse ponto aquilo que parecia ser Alice, soltou uma gargalhada sombria e metálica, ela começou a caminhar na minha direção, a única coisa que eu sentia era pavor.

Doutor, não seja tolo, Alice Wurtz morreu há 2 anos, o corpo dela agora é meu, e com esse corpo, nada vai me impedir em meu propósito de destruir tudo que Lena Brandenburg fez.

Mas o que é você afinal? Perguntei.

Quem sou eu? Eu sou o Caos, doutor, e minha função é levar tudo à ruína, mas antes eu levo todos a pensarem que chegaram à glória. Lena e Xiao só chegaram até aqui pois eu ajudei, agora é hora de pagar a dívida.

Então você é um demônio? Eu já parecia estar me esvaindo.

Hum… eu sou aquilo que os demônios temem, pois eu sou a origem e o fim deles.

Quando ela disse isso, a névoa negra e densa dela se expandiu e cobriu toda a casa, eu me senti sufocado, e com um terror que jamais senti. Alice apareceu na minha frente, ainda nua, mas sem nada a cobrindo, sua pele estava pálida e seus olhos eram negros, mais densos que aquela névoa. Eu já não estava mais em casa, eu estava em trevas profundas.

Doutor Kern, nada acontecerá com o senhor, quando voltar estará em outro lugar, e tudo o que o senhor viveu até hoje, será um passado distante, você me ajudou no meu plano, agora eu retribuo, mas lembre-se eu sempre volto.

E foi isso, acordei em uma nave da Longwang, não fazia ideia do que havia acontecido, eu estava em uma cama de hospital, assim que acordei uma das enfermeiras me disse para ter calma, que eu precisava me recuperar de um longo período em coma.

Coma? Por quanto tempo? Perguntei com medo da resposta.

Preciso que o senhor se acalme… pois faz 10 anos, desde o dia da explosão de Marte.

Minha cabeça entrou em parafuso, e eu não sabia de mais nada, perguntei sobre a doutora Aelena, e a enfermeira disse, que ela agora era chefe de operações da Comunidade Móvel Espacial, 40% da população havia morrido em Marte, inclusive Lena Brandenburg. Perguntei sobre Alice Wurtz, e a enfermeira me falou com singeleza:

Nunca, em hipótese alguma, fale sobre Alice Wurtz, é estritamente proibido.

E nunca mais nada sobre Alice Wurtz foi mencionado, tudo sobre ela foi destruído na explosão, menos o legado dos Brandenburg, que seguiria com Yaakov’ Na Brandenburg como presidente da Longwang. Afinal, eles são inevitáveis.

Fim.